Sobre biscoitos e sonhos
Às vezes os sonhos são como nuvens pesadas, quase palpáveis, quase alcançáveis. Quase tanta coisa e quase nada. Estão lá, perto-perto, mas a gente não alcança. A gente tenta, tenta e, como o guri que não alcança o armário mais alto, a gente não consegue. E pede paiê, me ajuda, mas ele não tá em casa... E a gente pega a cadeira da cozinha – e não alcança, e põe uma caixa em cima da cadeira – e não alcança, até que a gente leva uma bruta queda e a única solução é chorar. Ou dançar um tango argentino, tocar uma valsa vienense, sei lá.
Mas a gente não tem talento pra música e a única solução é o choro mesmo. O mais desmedido, desamparado, desalmado e genuíno choro. Porque ninguém entende que você não está chorando pelo joelho esfolado ou pelo braço roxo, ninguém entende que o que mais dói é você não ter conseguido alcançar aquele pacote de biscoitos, ninguém entende que nenhum outro biscoito além daquele te fará feliz. E ninguém vai dá-lo a você.
E aí você compreende que tem engolir o choro, que nem seu avô dizia, e pegar a cadeira outra vez. Mesmo que todas as outras crianças estejam lá fora brincando e você esteja perdendo um tempão com essa coisa toda de cadeira e biscoitos. Você compreende que precisa levantar e colocar outra caixa em cima da cadeira e outra e outra até que você tenha crescido tanto, mas tanto, que você agora alcança o armário. E você pode então dar o mais desmedido, desabrido e genuíno sorriso. O maior de todos os sorrisos. Não apenas porque conseguiu os seus biscoitos, mas porque você levantou e ignorou todos os machucados, porque você não esperou por ninguém. Porque por aquele pacote você cairia mil vezes, quebraria mil vezes o braço e levantaria tantas vezes fossem necessárias.